HC
Habeas Corpus
Processo nº 896466
ID do Registro
#6978b06cb8a8a
202400765895
-
REYNALDO SOARES DA FONSECA
2024-03-19
-
2024-03-19
Não categorizado
Ementa
Não disponível
Decisão Completa
HABEAS CORPUS Nº 896466 - RJ (2024/0076589-5)
DECISÃO
Cuida-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado pela
Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro em favor de CLEYDSON
ROCHA DE SOUZA, impugnando acórdão do Tribunal de Justiça do Rio de
Janeiro no Agravo de Execução Penal n. 5004941-52.2023.8.19.0500.
Consta que, em decisão proferida em 01/12/2022 no bojo da Execução
Penal n. 0438151-06.2016.8.19.0001, o Juízo de Direito da Vara de
Execuções Penais do Rio de Janeiro/RJ determinou o cômputo em dobro
de todo o tempo durante o qual o apenado esteve acautelado no
Instituto Plácido de Sá Carvalho, seja dizer, desde 21/04/2022 até a
data em que for transferido para outra UP ou for concedido
benefício que enseja a liberdade. Em decisão posterior foi concedida
Prisão Albergue Domiciliar ao apenado em 08/08/2023.
Inconformado com a decisão que determinou o cômputo em dobro, o
Ministério Público estadual interpôs agravo em execução que veio a
ser provido, em acórdão assim ementado:
AGRAVO EM EXECUÇÃO. DECISÃO QUE DEFERIUO CÔMPUTO EM DOBRO DO PERÍODO
DE ACAUTELAMENTO NO INSTITUTO PENAL PLÁCIDO DE SÁ CARVALHO. RECURSO
MINISTERIAL PELA REFORMA DA DECISÃO, ADUZINDO QUE O APENADO FOI
TRANSFERIDOPARA O INSTITUTO EM 21/04/2022, ISTO É, POSTERIORMENTEÀ
CESSAÇÃO DA SUPERLOTAÇÃO PRISIONAL, OCORRIDA EM 05/03/2020, CONFORME
TEOR DO OFÍCIO Nº 91/2020/SEAP.
1. Agravo em Execução interposto pelo Ministério Público contra
decisão prolatada pelo Juízo da VEP, que deferiu o cômputo em dobro
do período de permanência do apenado no IPPSC. Inconformado, o
Ministério Público pugna pela reforma da decisão, aduzindo que o
período em que o apenado esteve acautelado no Instituto Plácido Sá
de Carvalho foi posterior à cessação da superlotação prisional,
ocorrida em 05/03/2020, conforme teor do Ofício nº 91/2020/SEAP.
2. Descendo ao caso, trata-se de apenado condenado pela prática de
delitos patrimoniais mediante emprego de violência e grave ameaça
(roubo majorado), totalizando a pena de 12anos, 08meses e 20diasde
reclusão, sendo que foi transferido para o Instituto Plácido Sá de
Carvalho, em21/04/2022, lá permanecendo até 11/08/2023, quando
cumprido alvará de soltura por força de decisão que lhe concedeu a
progressão para o regime aberto, estabelecendo a prisão albergue.
Durante o curso da execução da pena, a defesa pleiteou ao Juízo da
Execução o cômputo em dobro da pena referente ao período de prisão
do apenado no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, com base na
Resolução de 22/11/2018 da CIDH -Corte Interamericana de Direitos
Humanos. Em contrapartida, o Ministério Público se posicionou pelo
indeferimento deste pedido, alegando que o Instituto Penal Plácido
Sá Carvalho -SEAPPC se encontra com população carcerária
regularizada desde 05/03/2020, de acordo com o Ofício nº 91/SEAP.
Não obstante, foi proferida decisão pelo Juízo da Execução acolhendo
o pleito defensivo determinando o cômputo em dobro de todo o tempo
de permanência do apenado no Instituto Penal Plácido de Sá
Carvalho(desde o dia 21/04/2022 até a data em que for transferido
para outra UP ou for concedido benefício que enseja a liberdade),com
fundamento na decisão proferida pelo E. Superior Tribunal de
Justiça no Recurso em Habeas Corpus nº 136961/RJ.
Cabe pontuar que esta Decisão Monocrática proferida pelo Min.
Reynaldo Soares da Fonseca, no Recurso em Habeas Corpus nº
136961-RJ, na qual foi dado provimento ao recurso para que se efetue
o cômputo em dobro de todo o período de cumprimento de pena pelo
paciente no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, não tem efeito
vinculante.
3. Examinado o presente caso, o que resta demonstrado por todos
estes fatos, é que o apenado cumpriu sua pena no IPPSC após o
término da situação de superlotação(Ofício nº 91/SEAP -05/03/2020)
desta unidade prisional, ou seja, após a regularização da taxa de
ocupação estabelecida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
4. Neste sentido, concordo com o Agravante ao afirmar que, no
presente caso, não foi demonstrada a necessidade de contagem
duplicada da pena ali cumprida. PROVIMENTO DO AGRAVO.
(Agravo de Execução Penal n. 5004941-52.2023.8.19.0500, Rela. Desa.
PAULO CESAR VIEIRA DE CARVALHO FILHO, 4ª Câmara Criminal do TJ/RJ,
unânime, julgado em 31/01/2024 )
Na presente impetração, a Defensoria insiste no direito do apenado
ao cômputo em dobro de todo o período durante o qual permaneceu
encarcerado no IPPSC, seja dizer desde 25/06/2021 até a presente
data e enquanto permanecer nessa unidade prisional.
Sustenta que a Resolução de 28/11/2018, da Corte Interamericana de
Direitos Humanos, que determinou o cômputo em dobro do período de
privação de liberdade cumprido no Instituto Penal Plácido de Sá
Carvalho, não teria deixado de ser aplicável após o fim da
superlotação prisional ocorrida em 5/3/2020.
Argumenta no sentido da "necessidade de reparação dos danos às
pessoas privadas de liberdade no Instituto Penal Plácido Sá Carvalho
não se deve apenas à superpopulação carcerária que, segundo o
aresto ora combatido, já estaria sanada, mas também a outros razões
de igual seriedade, como a deficiência em matéria de saúde,
insalubridade e assistencial, bem como em virtude do alto índice de
óbitos de apenados que cumpriam suas reprimendas naquela
penitenciária" (e-STJ fl. 13).
Invoca, em amparo a sua tese, julgado de minha lavra no Habeas
Corpus n. 781.951/RJ (DJe de 8/11/2022, transitado em julgado em
1º/12/2022), assim como outras decisões monocráticas desta Corte.
Pondera, por fim, que "a suspensão dos efeitos da Resolução de
22/11/2018 só pode ser proclamada pela própria Corte Interamericana
de Direitos Humanos, e, enquanto isso não ocorrer, sua eficácia
permanecerá, sendo obrigatória a sua aplicação" (e-STJ fl. 14).
Pede, assim:
a) O deferimento do pedido LIMINAR, suspendendo-se a decisão do
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, com a consequente
restauração e manutenção da decisão do Juízo de Execuções Penais que
deferiu o cômputo em dobro, até o encerramento do julgamento, em
caráter definitivo, do presente remédio constitucional.
b) A CONCESSÃO DA ORDEM de habeas corpus para que, uma vez
reconhecida a aplicabilidade das medidas da Resolução da Corte
Interamericana de Direitos Humanos, seja consequentemente declarado
que o paciente faz jus ao cômputo em dobro do tempo total que
permaneceu privado de liberdade no Instituto Penal Plácido Sá
Carvalho, desde 21/04/2022 até à presente data e enquanto permanecer
na supracitada unidade prisional.
(e-STJ fls. 22/23)
É o relatório. Passo a decidir.
Preliminarmente, cumpre esclarecer que as disposições previstas nos
arts. 64, III, e 202, do Regimento Interno do Superior Tribunal de
Justiça não afastam do Relator a faculdade de decidir liminarmente,
em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão
que se conforma com enunciado de súmula, com jurisprudência
consolidada dos Tribunais Superiores ou a contraria (AgRg no HC
513.993/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em
25/6/2019, DJe 1º/7/2019; AgRg no HC 475.293/RS, Rel. Ministro
RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, Dje 3/12/2018;
AgRg no HC 499.838/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma,
julgado em 11/4/2019, DJe 22/4/2019; AgRg no HC 426.703/SP, Rel.
Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe
23/10/2018; e AgRg no RHC 37.622/RN, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE
ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013).
Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate
por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência
consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o
Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de
manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo
submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas
corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo
decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da
razoável duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da
Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico
brasileiro pela EC n.45/2004 com status de princípio fundamental
(AgRg no HC n. 268.099/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR,
Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013).
Na verdade, a ciência posterior do Parquet que, longe de suplantar
sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade
processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em
princípio, já é conhecido (EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, Rel.
Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe
23/2/2016).
Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir
a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de
locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para
assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a
Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento
monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de
jurisprudência pacífica (AgRg no HC 514.048/RS, Rel. Ministro
RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019).
O Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira
Seção deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização
crescente e sucessiva do habeas corpus, passaram a restringir a sua
admissibilidade quando o ato ilegal for passível de impugnação pela
via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da
ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. Esse
entendimento objetivou preservar a utilidade e a eficácia do
mandamus, que é o instrumento constitucional mais importante de
proteção à liberdade individual do cidadão ameaçada por ato ilegal
ou abuso de poder, garantindo a celeridade que o seu julgamento
requer.
Nesse sentido, confiram-se os seguintes julgados, exemplificativos
dessa nova orientação das Cortes Superiores do País: HC n.
320.818/SP, Relator Ministro FELIX FISCHER, Quinta Turma, julgado em
21/5/2015, DJe 27/5/2015; e STF, HC n. 113.890/SP, Relatora
Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julg. em 3/12/2013, DJ
28/2/2014.
Este é exatamente o caso dos autos, em que a presente impetração faz
as vezes de recurso próprio. Todavia, em homenagem ao princípio da
ampla defesa, passa-se ao exame da insurgência, para verificar a
existência de eventual constrangimento ilegal passível de ser sanado
pela concessão da ordem, de ofício.
Do termo final para a aplicação do cômputo em dobro de pena
determinado na Resolução da CIDH de 22/11/2018, referente ao
Instituto Plácido de Sá Carvalho/RJ
Questiona-se, nos autos, qual seria o marco final a ser levado em
consideração para dar cumprimento à determinação de cômputo em dobro
da pena cumprida no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, no Rio
de Janeiro, estabelecida pela Resolução de 22/11/2018 da Corte
Interamericana de Direitos Humanos.
Sobre o tema, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro assim se
manifestou:
Inicialmente, imperioso destacar que a execução penal possui como
objetivo, além do caráter de prevenção geral e repressão à prática
de crimes, a ressocialização do indivíduo visando torná-lo adaptado
ao convívio em sociedade.10.
Luiz Flávio Gomes, sobre o papel desempenhado pela pena, expõe:
"A pena ou qualquer outra resposta estatal ao delito, destarte,
acaba assumindo um determinado papel. No modelo clássico, a pena (ou
castigo) ou é vista com finalidade preventiva puramente dissuasória
(que está presente, em maior ou menor intensidade, na teoria
preventiva geral negativa ou positiva, assim como na teoria
preventiva especial negativa). Já no modelo oposto (Criminologia
Moderna), à pena se assinala um papel muito mais dinâmico, que é o
ressocializador, visando a não reincidência, seja pela via da
intervenção excepcional no criminoso (tratamento com respeito aos
direitos humanos), seja pelas vias alternativas à direta intervenção
penal.
GOMES, Luiz Flávio. Penas e medidas alternativas à prisão: doutrina
e jurisprudência. 2. Ed. vol. 1. Ver., Atual. e Ampl. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2000, p. 40.
11. Nesta linha é o sistema da progressividade adotado pela Lei de
Execução Penal, que visa favorecer o apenado que apresenta bom
comportamento carcerário, inserindo-o em um regime menos rigoroso,
com maior amplitude de saídas extramuros, e sancionar aquele que
persevera em condutas graves, regredindo-o para um regime mais
severo.
12. Assim, a progressão do apenado para regime mais benéfico deve
ser gradual, de forma que haja uma adaptação à nova realidade, até
que atinja sua liberdade condicional e, por fim, a liberdade plena
com o término da pena ou extinção da punibilidade.
13. Descendo ao caso, trata-se de apenado condenado pela prática de
delitos patrimoniais com emprego de violência ou grave ameaça
totalizando a pena de 12 anos, 08 meses e 20 dias de reclusão, dos
quais passou a cumprir no Instituto Plácido Sá de Carvalho a partir
do dia 21/04/2022, sendo que lá permaneceu até o dia 11/08/2023,
quando cumprido alvará de soltura por força de decisão que lhe
concedeu a progressão para o regime aberto, estabelecendo a prisão
albergue.
14. Durante o curso da execução da pena, a defesa pleiteou ao Juízo
da Execução, o cômputo em dobro da pena referente ao período de
prisão do apenado no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, com
base na Resolução de 22/11/2018 da CIDH -Corte Interamericana de
Direitos Humanos.
15. Em contrapartida, o Ministério Público se posicionou pelo
indeferimento deste pedido, alegando que o Instituto Penal Plácido
Sá Carvalho - SEAPPC se encontra com população carcerária
regularizada desde 05/03/2020,de acordo com o Ofício nº 91/SEAP.
16. Não obstante, foi proferida decisão pelo Juízo da Execução
acolhendo o pleito defensivo determinando o cômputo em dobro de todo
o tempo de permanência do apenado no Instituto Penal Plácido de Sá
Carvalho, com fundamento na decisão proferida pelo E. Superior
Tribunal de Justiça no Recurso em Habeas Corpus nº 136961/RJ.
Vejamos:
"(...)Destarte, em cumprimento à Resolução da Corte IDH e às
recentes decisões proferidas pelo E. STJ, DETERMINO o cômputo em
dobro de TODO O TEMPO em que o apenado estiver acautelado no
Instituto Plácido Sá de Carvalho desde 21/04/2022 até a data em que
for transferido para outra UP ou for concedido benefício que enseja
a liberdade.
Atualizem-se os cálculos.
Dê-se ciência às partes.(...)"
17. Inicialmente, cabe pontuar que a Decisão Monocrática proferida
pelo Min. Reynaldo Soares da Fonseca, no Recurso em Habeas Corpus nº
136961-RJ, na qual foi dado provimento ao recurso para que se
efetue o cômputo em dobro de todo o período de cumprimento de pena
pelo paciente no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, de 09 de
julho de 2017 a 24 de maio de 2019, não tem efeito vinculante.
18. Outrossim, o caso julgado trata de apenado que vem cumprindo
pena no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho no período de 09 de
julho de 2017 a 24 de maio de 2019. Na hipótese, o Ministro
asseverou:
"Conforme se extrai dos trechos transcritos, a controvérsia se cinge
ao termo inicial de efetividade da já mencionada a Resolução da
Corte IDH, de 22 de novembro de 2018, no que concerne ao item 4,
onde se determinou que se computasse "em dobro cada dia de privação
de liberdade cumprido no IPPSC, para todas as pessoas ali alojadas,
que não sejam acusadas de crimes contra a vida ou a integridade
física, ou de crimes sexuais, ou não tenham sido por eles
condenadas, nos termos dos Considerandos 115 a 130 da presente
resolução.(...)De fato, não se mostra possível que a determinação de
cômputo em dobro tenha seus efeitos modulados como se o recorrente
tivesse cumprido parte da pena em condições aceitáveis até a
notificação e a partir de então tal estado de fato tivesse se
modificado. Em realidade, o substrato fático que deu origem ao
reconhecimento da situação degradante já perdurara anteriormente,
até para que pusesse ser objeto de reconhecimento, devendo, por tal
razão, incidir sobre todo o período de cumprimento da pena. Nesse
ponto, vale asseverar que, por princípio interpretativo das
convenções sobre direitos humanos, o Estado-parte da CIDH pode
ampliar a proteção dos direitos humanos, por meio do princípio pro
personae, interpretando a sentença da Corte IDH da maneira mais
favorável possível aquele que vê seus direitos violados. No mesmo
diapasão, as autoridades públicas, judiciárias inclusive, devem
exercer o controle de convencionalidade, observando os efeitos das
disposições do diploma internacional e adequando sua estrutura
interna para garantir o cumprimento total de suas obrigações frente
à comunidade internacional, uma vez que os países signatários são
guardiões da tutela dos direitos humanos, devendo empregar a
interpretação mais favorável a indivíduo. Logo, os juízes nacionais
devem agir como juízes interamericanos e estabelecer o diálogo entre
o direito interno e o direito internacional dos direitos humanos,
até mesmo para diminuir violações e abreviar as demandas
internacionais. É com tal espírito hermenêutico que se dessume que,
na hipótese, a melhor interpretação a ser dada, é pela aplicação a
Resolução da Corte Interamericana de Direitos Humanos, de 22 de
novembro de 2018 a todo o período em que o recorrente cumpriu pena
no IPPSC".
19. Impõe-se registrar que a Resolução de 22/11/2018 da CIDH-Corte
Interamericana de Direitos Humanos estabeleceu, dentre outras
medidas, que a pena privativa de liberdade executada no IPPSC deve
ser computada em dobro, conforme o item 121, da Resolução. O Brasil
foi formalmente notificado dessa Resolução em 14/12/2018, sendo
estabelecido o prazo de 06 meses para cumprimento.
20. Examinado o presente caso, o que resta demonstrado por todos
estes fatos, é que o apenado passou a cumprir sua pena no IPPSC após
o término da situação de superlotação(Ofício nº 91/SEAP
-05/03/2020) desta unidade prisional, ou seja, após a regularização
da taxa de ocupação estabelecida pela Corte Interamericana de
Direitos Humanos.
Vejamos(fl. 09do index 000002):
(...)
21. Destaque-se o disposto no Ofício nº 91 expedido pela Secretaria
de Estado de Administração Penitenciária em 05/03/2020:
"(...)em atenção à Resolução da Corte Interamericana de Direitos
Humanos de 22 de novembro de 2018, cumpre informar que o resultado
do apoio dispensado por esse r. Juízo a Secretaria de Estado de
Administração Penitenciária, atualmente, o Instituto Penal Plácido
Sá Carvalho alcançou o efetivo carcerário de 1.642 internos, tendo
sua taxa de ocupação alcançado os 100%, uma vez que essa unidade
prisional possui capacidade para 1.699 custodiados. em comento
encontrava-se com aproximadamente 3.820 apenados."
22. Neste sentido, concordo com o Agravante ao afirmar que no
presente caso, não foi demonstrada a necessidade de contagem
duplicada da pena ali cumprida.
23. Corroborando este entendimento, recente precedente deste E.
Tribunal:
(...)
24. Pelo exposto, oriento o voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao
recurso ministerial para afastar o cálculo em dobro do tempo de pena
cumprido pelo ora agravado no IPPSC.
(e-STJ fls. 99/108)
Observo, inicialmente, que a situação violadora dos direitos humanos
dos apenados que cumpriam pena no IPPSC já existia há algum tempo
quando, em março de 2016, o caso foi apresentado à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos.
Veja-se que, ao tratar da situação de superlotação do presídio, a
Resolução de 28/11/2018, mencionou os seguintes dados:
16. Em 2014, a população do IPPSC era de 3.139 detentos. O número de
detentos que ingressaram no sistema foi de 4.662, ao passo que
somente 2.680 detentos deixaram a unidade carcerária, o que resultou
num excedente populacional de 1.982 detentos. Em 2016, a população
do IPPSC tinha subido para 3.477 detentos. Ingressaram 2.325 novos
detentos, e deixaram o centro 1.202 detentos, criando-se, assim, um
excedente de 1.123 detentos. Em 2017, o número total de detentos no
IPPSC permaneceu quase inalterado em relação ao ano anterior,
alcançando 3.498.
17. No primeiro trimestre de 2018, o IPPSC abrigava uma população
total de 3.820 detentos.
(https://www.corteidh.or. cr/docs/medidas/placido_se_03_por.pdf -
consulta em 4/11/2022)
Seja dizer, pelo menos desde 2014 já existia superlotação
carcerária.
Mas isso não é tudo. A CIDH faz alusão, também, a um elevado número
de mortes no presídio entre 2016 e o primeiro trimestre de 2018 (56)
atribuídas a doenças, ao fato de que o IPPSCA liderava o ranking
das unidades penitenciárias com mais presos mortos e às condições
insalubres e inseguras do presídio, assim como à falta de
assistência médica suficiente, pelo menos desde 2016.
Confira-se:
48. O Diagnóstico Técnico apresentado pelo Estado introduziu dados
relevantes sobre as condições de detenção e infraestrutura do IPPSC.
Entre outros, afirmou que o IPPSC não dispõe de uma ala separada
para pessoas idosas e LGBTI, e que nem todos os presos possuem
colchões. Tampouco há suficiente distribuição de uniformes,
calçados, roupa de cama e toalhas para o grande número de internos
da unidade carcerária.
49. O Diagnóstico Técnico registra que são insuficientes a
incidência do sol e a ventilação cruzada nas celas, e observa que
não há água quente disponível na unidade carcerária. Também destacou
a ausência de um plano de prevenção e combate de incêndios no
Instituto e a escassez de equipamentos para essa finalidade.
50. Os representantes, por sua vez, afirmaram que as condições
materiais de detenção do IPPSC permanecem inalteradas. Além disso,
tomaram nota do relatório técnico elaborado pelo Corpo de Bombeiros,
após a inspeção realizada em 11 de outubro de 2016 no IPPSC. De
acordo com esse relatório técnico, o IPPSC não dispunha de sistemas
de sinalização de incêndio, de iluminação de emergência, de detecção
de incêndio ou de alarme ou avisadores. A unidade tampouco dispunha
de um manual de segurança em que figurassem as manutenções
preventivas e corretivas ou um plano de escape. O relatório também
concluiu que as mangueiras e os hidrantes do IPPSC não estavam em
condições de uso, que as caixas de incêndio não estavam sinalizadas,
que as portas não tinham ferragens antipânico e que as saídas de
emergência não estavam destravadas. O relatório registra ainda que o
número de pessoas na unidade carcerária não era compatível com a
capacidade, e que os funcionários do estabelecimento não haviam sido
treinados para uma situação de emergência.
51. Os representantes também fizeram referência ao relatório do
Sindicato dos Servidores do Sistema Penal do Estado do Rio de
Janeiro (SINDSISTEMA) sobre as condições de trabalho dos agentes
penitenciários do IPPSC. Esse relatório concluiu que o número ideal
de inspetores de segurança penitenciária no IPPSC seria de 33
inspetores. O atual contingente que trabalha na unidade carcerária,
segundo o SINDSISTEMA, conta com um efetivo funcional de nove
inspetores em cada turno, os quais "têm que atender às demandas do
efetivo carcerário de mais de três mil detentos (regime semiaberto),
livres no pátio da unidade carcerária das oito da manhã às
dezesseis horas".
(...)
78. A Corte verifica que essas pessoas sofrem as consequências de
uma superpopulação com densidade próxima dos 200%, quando os
critérios internacionais - como o do Conselho da Europa - salientam
que ultrapassar 120% implica superpopulação crítica.
79. Conforme os conhecimentos elementares em matéria penitenciária e
o verificado até o presente, reconhecido inclusive pelo Estado,
essas consequências se traduzem principalmente em:
i. atenção médica ínfima, com uma médica a cargo de mais de três mil
presos, quando a OMS/OPAS considera que, no mínimo, deve haver 2,5
médicos por 1.000 habitantes para prestar os mais elementares
serviços em matéria de saúde à população livre;
ii. mortalidade superior à da população livre;
iii. carência de informação acerca das causas de morte;
iv. falta de espaços dignos para o descanso noturno, com
superlotação em dormitórios, verificada in situ;
v. insegurança física por falta de previsão de incêndios, em
particular com colchões não resistentes ao fogo, verificada in situ;
vi. insegurança pessoal e física decorrente da desproporção de
pessoal em relação ao número de presos.
(https://www.corteidh.or. cr/docs/medidas/placido_se_03_por.pdf -
consulta em 04/11/2022)
Tendo em conta esse quadro, a CIDH determina ao Estado Brasileiro,
no parágrafo 134 da referida Resolução, que realize um Plano de
Contingência para a reforma estrutural e a redução da superlotação
do IPPSC, que deveria prever como elementos mínimos:
i. a remodelação de todos os pavilhões, celas e espaços comuns;
ii. a redução substancial do número de internos por meio da
aplicação da Súmula Vinculante n. 56 e dos critérios estabelecidos
na presente resolução; (Considerandos 115 a 130 supra)
iii. a ampliação do uso de monitoramento eletrônico; (Considerando
20 supra)
iv. a determinação da capacidade máxima de internos, atendendo aos
indicadores concretos estabelecidos no artigo 85 da resolução n.
09/2011, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária
(CNPCP);
v. a implementação das recomendações constantes do Relatório Técnico
do Corpo de Bombeiros, de outubro de 2016, inclusive sistema de
iluminação de emergência, sistema de detecção de incêndio ou sistema
de alarme ou avisadores; elaboração de um manual de segurança com
manutenções preventivas e corretivas e plano de escape; reforma das
mangueiras e hidrantes; portas com ferragens antipânico; e
treinamento dos funcionários para situações de emergência;
(Considerandos 50 e 66 supra)
vi. a previsão de um número de agentes penitenciários ajustado às
pessoas privadas de liberdade no IPPSC (ver Considerando 52), tanto
nos dias atuais como durante a implementação do plano de redução de
internos;
vii. as medidas diretamente destinadas a proteger os direitos à vida
e à integridade dos beneficiários, especialmente em relação às
deficientes condições de acesso à saúde, bem como às condições de
segurança e controles internos;
viii. a implementação do Plano em carácter prioritário, sem que o
Estado possa alegar dificuldades financeiras para justificar o
descumprimento de suas obrigações internacionais.
Delineado esse contexto, ressalta nítido que os elementos que
levaram a CIDH a reconhecer a existência de violação dos direitos
humanos dos encarcerados não se restringiam à constatação da
superlotação carcerária, mas abrangiam também as condições
insalubres do presídio, a falta de acesso à saúde, condições de
segurança e controle internos.
Tudo isso ponderado, tenho não ser possível concluir, como o fez o
Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que o fato de a Secretaria de
Estado de Administração Penitenciária ter expedido ofício, em
5/3/2020, informando que o Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho
havia alcançado o efetivo carcerário de 1.642 internos, com taxa de
ocupação regularizada, implica em que a violação de direitos humanos
identificada pela CIDH teria cessado com o fim da superlotação.
Para se chegar a tal conclusão, deveriam ter sido juntadas aos autos
evidências de cumprimento, também, das demais recomendações da CIDH
referentes à reforma dos pavilhões, ao atendimento das
recomendações do Corpo de Bombeiros, ao aumento de agentes
penitenciários e do acesso à saúde. No entanto, o agravo em execução
julgado não faz qualquer alusão ao cumprimento dos demais itens do
plano de contingência.
Na mesma linha do raciocínio desenvolvido nesta decisão,
consultem-se, entre outros, os seguintes ju lgados: HC n.
836.040/RJ, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, DJe de 10/10/2023; HC n.
801.115/RJ, Rel. Ministro MESSOD AZULAY NETO, DJe de 05/10/2023; HC
n. 837.607/RJ, Rela. Ministra LAURITA VAZ, DJe de 2/10/2023; HC n.
823.778/RJ, Rel. Ministro JESUÍNO RISSATO (Desembargador convocado
do TJDFT), DJe de 28/9/2023; HC n. 775.221/RJ, R el. Ministro JOEL
ILAN PACIORNIK, DJe de 18/11/2022; HC n. 804.746/RJ, Rel. Ministro
ROGERIO SCHIETTI CRUZ, DJe de 2/3/2023; HC 801.114/RJ, Rel. Ministro
RIBEIRO DANTAS, DJe de 20/3/2023; e HC 806.242/RJ, Rel. Ministro
SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, DJe de 13/3/2023.
Isso posto, verifico a existência de constrangimento ilegal apto a
justificar a concessão da ordem de ofício.
Ante o exposto, com amparo no art. 34, XX, do Regimento Interno do
STJ, não conheço do habeas corpus. Entretanto, concedo a ordem de
ofício, para cassar o acórdão recorrido e restabelecer a decisão de
1º grau que determinou o cômputo em dobro de todo o tempo durante o
qual o apenado esteve acautelado no Instituto Plácido de Sá
Carvalho, ou seja, do dia 21/04/2022 até o dia 11/08/2023, quando
cumprido alvará de soltura por força de decisão que lhe concedeu a
prisão albergue domiciliar (e-STJ Fl. 100 ).
Comunique-se, com urgência, o teor desta decisão tanto ao Juízo das
Execuções quanto ao Tribunal de Justiça.
Intimem-se.
Brasília, 15 de março de 2024.
Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA
Relator