REsp
Recurso Especial
Processo nº 776549
ID do Registro
#69779d7e78288
200501408461
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LUIZ FUX
2007-05-31
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2007-05-15
Não categorizado
Ementa
PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPOSTA PELO MINISTÉRIO
PUBLICO EM FACE DE EX-DIRIGENTES DE FUNDAÇÃO DE DIREITO PRIVADO.
LEGITIMATIO AD CAUSAM DO PARQUET. ART. 127 DA CF/88. ARTS. 7.º, 200,
e 201 DO DA LEI N.º 8.069/90.
1. O Ministério Público Estadual detém legitimidade para a
propositura de ação civil pública, objetivando a responsabilização
de ex-dirigentes de fundação de direito privado, instituída para a
execução de programas de proteção e sócioeducativos destinados a
crianças e adolescentes.
2. Deveras, o Ministério Público está legitimado a defender os
interesses transindividuais, quais sejam os difusos, os coletivos e
os individuais homogêneos.
3. É que a Carta de 1988, ao evidenciar a importância da cidadania
no controle dos atos da administração, com a eleição dos valores
imateriais do art. 37, da CF como tuteláveis judicialmente,
coadjuvados por uma série de instrumentos processuais de defesa dos
interesses transindividuais, criou um microsistema de tutela de
interesses difusos referentes à probidade da administração pública,
nele encartando-se a Ação Popular, a Ação Civil Pública e o Mandado
de Segurança Coletivo, como instrumentos concorrentes na defesa
desses direitos eclipsados por cláusulas pétreas.
4. A nova ordem constitucional erigiu um autêntico 'concurso de
ações' entre os instrumentos de tutela dos interesses
transindividuais e, a fortiori, legitimou o Ministério Público para
o manejo dos mesmos.
5. O Ministério Público do Estado de Minas Gerais ajuizou ação civil
pública em face de ex-dirigentes de fundação privada de assistência
à criança, fundado na prática de inúmeras irregularidades, apuradas
em auditoria interna, especialmente, uso indevido de verbas, além da
apropriação indébita de recursos da referida entidade, no importe de
R$ 81.192,47), consoante se infere dos autos.
6. In casu, o estatuto da fundação (fls. 49/61) revela estreme de
dúvidas a sua vocação protetiva e assistencial, especialmente, pelo
auxílio e assistência às crianças e famílias desamparadas, sem
distinção de raça, cor, sexo e idéias políticas ou religiosas.
7. O controle engendrado pelo Ministério Público, consoante prevê os
art. 26 do Código Civil/2002 e o arts. 1.199 a 1.204 do CPC,
realiza-se mediante exame do balanço anual, recebido dos órgãos
diretivos da Fundações, o qual possibilita, com considerável
precisão, a aferição acerca da vida patrimonial, econômica e
financeira da instituição fiscalizada.
8. A consecução dos objetivos finalísticos da Fundação é acompanhada
pela Curadoria, a quem incumbe velar, na acepção mais ampla da
palavra, qual seja, proteger, zelar e cuidar, a fim de que a
fundação cumpra de forma eficiente os seus desígnios.
9. Consectariamente, a ampliação conceitual do vocábulo "velar",
inserto no art. 26 do Código Civil de 1916 e reproduzido no art. 66
do novel Código Civil de 2002, justifica-se pela proporcionalidade
entre os encargos atribuídos e os meios postos à disposição para a
consecução daqueles, sob pena de inocuidade do "dever-poder"
atribuído ao Ministério Público no exercício de quão importante
mister.
10. À luz da legislação atinente à matéria, afere-se anomalia na
administração da fundação, revela-se razoável que os interessados e,
especialmente, o Ministério Público, no exercício de seu mister,
sejam legitimados à propositura de ações judiciais aptas à coibir
eventuais ingerências, possibilitando à fundação o cumprimento de
sua finalidade precípua, consoante a lei e seus estatutos, máxime
pela expressa previsão de fiscalização das mencionadas entidades,
inserta no art. 95 do Estatuto da Criança do Adolescente, verbis:
"As entidades governamentais e não-governamentais referidas no art.
90 serão fiscalizadas pelo Judiciário, pelo Ministério Público e
pelos Conselhos Tutelares(...)".
11. Ad argumentandum tantum, o direito insculpido na Constituição
Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, é direito
indisponível, em função do bem comum, maior a proteger, derivado da
própria força impositiva dos preceitos de ordem pública que regulam
a matéria.
12. Outrossim, a Lei n.º 8.069/90 no art. 7.º, 200 e 201,
consubstanciam a autorização legal a que se refere o art. 6.º do
CPC, configurando a legalidade da legitimação extraordinária
cognominada por Chiovenda como "substituição processual", senão
vejamos:
"Art. 7º A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e
à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que
permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em
condições dignas de existência."
"Art. 200. As funções do Ministério Público previstas nesta Lei
serão exercidas nos termos da respectiva lei orgânica."
"Art. 201. Compete ao Ministério Público:
(...) V - promover o inquérito civil e a ação civil pública para a
proteção dos interesses individuais, difusos ou coletivos relativos
à infância e à adolescência, inclusive os definidos no art. 220, §
3º inciso II, da Constituição Federal;"
13. Recurso especial provido para reconhecer a legitimidade do
Ministério Público Estadual.
Decisão Completa
Vistos, relatados e discutidos estes autos, os Ministros da PRIMEIRA
TURMA do Superior Tribunal de Justiça acordam, na conformidade dos
votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, dar
provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro
Relator. Os Srs. Ministros Teori Albino Zavascki, Denise Arruda,
José Delgado e Francisco Falcão votaram com o Sr. Ministro Relator.