REsp
Recurso Especial
Processo nº 2216068
ID do Registro
#69779d5748d3b
202500567604
-
MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA
2025-12-23
-
2025-12-09
Não categorizado
Ementa
DIREITO AMBIENTAL. RECURSO ESPECIAL. DANO MORAL COLETIVO. MANUTENÇÃO
DE 53 AVES SILVESTRES EM CATIVEIRO. RESTABELECIMENTO DE CONDENAÇÃO.
RECURSO PROVIDO.
I. Caso em exame
1. Recurso especial interposto pelo Ministério Público do Estado de
São Paulo contra acórdão que afastou a condenação por dano moral
coletivo em ação civil pública ambiental, proposta em razão da
retirada de 53 aves silvestres de seu ambiente nativo, que foram
mantidas em cativeiro.
2. O juízo de primeiro grau reconheceu o dano moral coletivo e fixou
indenização no valor de R$ 15.000,00. O Tribunal de Justiça de São
Paulo reformou a sentença, entendendo que não houve demonstração de
repercussão negativa perante a coletividade.
3. O recurso especial sustenta que a responsabilidade ambiental
abrange uma cadeia de prejuízos coletivos, imateriais e reflexos,
devendo ser indenizado os danos causados à coletividade e às
espécies animais que foram retiradas de seus habitats e privadas de
sua função ecológica.
II. Questão em discussão
4. A questão em discussão consiste em saber se a manutenção em
cativeiro de 44 trinca-ferros, 5 coleirinhas, 1 sabiá laranjeira, 1
tiziu, 1 pixoxó e um sabiá coleira, sem a devida permissão, licença
ou autorização da autoridade competente, deve ensejar a condenação
por danos morais coletivos.
III. Razões de decidir
5. A fauna silvestre goza de especial proteção legal, é essencial ao
meio ambiente ecologicamente equilibrado, configurando um bem
difuso que deve ser protegido para as presentes e futuras gerações.
A retirada dessas aves do seu habitat natural e sua manutenção em
cativeiro impede o fluxo gênico, dificulta a formação de pares, a
manutenção de populações nativas e a continuidade ecológica,
configurando lesão difusa e transindividual pois ofende os valores
da sociedade, a biodiversidade, o equilíbrio ecológico e o
patrimônio natural que pertence às presentes e futuras gerações,
configurando, portanto, dano moral coletivo.
6. A quantidade de aves apreendidas é elevada, destacando-se que 44
trinca-ferros e 5 coleirinhas são aves que movimentam intensamente o
tráfico de fauna em razão de seu valor cultural e econômico em
competições de canto, bem como que o pixoxó é uma espécime
considerada vulnerável em listas oficiais e sua retirada do meio
natural é ainda mais lesiva porque reduz drasticamente o número de
indivíduos aptos à reprodução, afeta populações pequenas e
fragmentadas, compromete o sucesso reprodutivo da espécie,
aproximando-a da extinção local/regional.
IV. Dispositivo
7. Resultado do Julgamento: Recurso provido para restabelecer a
condenação por dano moral coletivo fixada na sentença de primeiro
grau.
Decisão Completa
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas,
acordam os Ministros da SEGUNDA TURMA do Superior Tribunal de
Justiça, após o voto do Sr. Ministro Relator, negando provimento ao
recurso, o voto vogal divergente da Sra. Ministra Maria Thereza de
Assis Moura, dando provimento ao recurso especial, os votos dos Srs.
Ministros Teodoro Silva Santos e Afrânio Vilela no mesmo sentido da
divergência, por maioria, dar provimento ao recurso especial, nos
termos do voto da Sra. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, que
lavrará o acórdão. Vencido o Sr. Ministro Marco Aurélio Bellizze.
Votaram com a Sra. Ministra Maria Thereza de Assis Moura os Srs.
Ministros Teodoro Silva Santos e Afrânio Vilela.
Ausente, ocasionalmente, o Sr. Ministro Francisco Falcão.